domingo, 25 de fevereiro de 2018

[Opinião] Novo escudo do Flamengo: pontos positivos e negativos



O trabalho da Escudo Sob Medida consiste em viabilizar ideias para equipes amadoras e profissionais. E é natural que em função do know-how adquirido haja a vontade de dar algumas opiniões sobre o mercado do design esportivo. Afinal, são mais de 20 anos estudando as escolas de design de escudos dos principais polos do mundo e suas derivações. Por isso, resolvi fazer uma análise do novo escudo do Flamengo. Do escudo parcial na verdade, já que foi divulgado apenas o monograma e ainda falta o emblema completo.

Os escudos esportivos não são diferentes das identidades visuais de empresas, seja de quais segmentos forem. Por isso é natural que o redesign ocorra mesmo em escudos muito tradicionais. Nos últimos anos vimos equipes como Barcelona e Atlético de Madrid redesenharem seus símbolos, e ambos são bons exemplos de que é possível trabalhar com linhas mais simples e reproduzíveis sem perder a conexão com a identidade histórica. Mais recentemente foi possível ver um exemplo de guinada de 360º com o novo escudo da Juventus, que embora divida opiniões nos mostra um clube preocupado em se renovar dentro de um mercado que trabalha com cifras monumentais. No Brasil esse movimento costuma ser mais lento e com poucos radicalismos. Talvez o exemplo maior de ruptura geral (dentre os maiores clubes do país) seja o do Atlético Paranaense (que inclusive, de acordo com rumores, deverá ser modificado novamente em breve), quando nos anos 90 o clube resolveu se distanciar bastante da lembrança do Flamengo e ter uma cara cada vez mais própria. E esse movimento sempre aconteceu, embora muitas vezes de forma pouco perceptível. O Fluminense redesenhou o seu símbolo nesse novo milênio mas muitos veículos e torcedores ainda se confundem. O mesmo ocorre com o Palmeiras, que arredondou suas letras e mexeu em algumas linhas de seu símbolo. E o Flamengo é o exemplo da vez. Nessa semana vazou o que será o novo monograma do clube. 

O novo emblema mostra de cara que tem como objetivo simplificar as linhas, trazendo um aspecto mais moderno e leve. E esse, sem dúvidas é o grande êxito do trabalho. Outro fator que me chamou atenção positivamente é que as extremidades estão parecidas com lâminas (literalmente), trazendo um ar agressivo (no bom sentido). Agora, mexer em um escudo tão bem resolvido e promover mudanças também pode trazer efeitos colaterais. O monograma do Flamengo, assim como o de outros clubes brasileiros (Fluminense, Vasco, Botafogo [antigo], Vitória, Remo etc) possuem grande influência da estética britânica, na qual monogramas de família, logos de empresas e, claro, escudos de alguns clubes (vide exemplo do Rangers da Escócia e de um dos primeiros escudos do Chelsea) foram o ponto de referência. Nesse tipo de estética, uma técnica muito legal é a de sobreposição das letras de forma trançada (gosto de chamar assim, pois o efeito é justamente das letras se sustentando como uma trança, quase que dando um nó). Não existe uma maneira única de fazer essa sobreposição e não é sempre que dá pra fazer, pois não são todas as letras que se encaixam bem. Mas a técnica que eu mais gosto e tento fazer sempre que possível é a sobreposição com os pontos de transição visíveis. Abaixo, trago alguns exemplos de trabalhos que realizei:




Existe ainda a possibilidade dos pontos de transição não estarem visíveis. Uma técnica que traz outro efeito, também bem bonito, e que uso quando percebo que a visibilidade dos pontos pode trazer um resultado excessivo para os olhos e que pode ser um empecilho quando o escudo for produzido fisicamente (sendo sublimado, bordado, silkado ou qualquer outra técnica):



Mas vamos voltar para os pontos de transição visíveis, que é a técnica utilizada no escudo do Flamengo. As letras sobrepostas se encontram em pontos. Nesses pontos, uma das letras vai ficar por cima e a outra por baixo. Para conseguir o efeito desejado, o caminho é intercalar as letras. Ou seja, em um ponto uma está por cima, no seguinte a outra:


O exemplo acima mostra uma solução onde foi possível implementar essa alternância de um jeito exato. Mas não vai ser sempre possível, sobretudo quando tiver mais de duas letras: 

Pontos de transição da letra "A"


Pontos de transição da letra "C"


Nos exemplos acima, ambos do mesmo escudo, é possível notar que em certos momentos não foi possível intercalar. Mas isso não necessariamente é um problema se mais pra frente a letra ficar "presa". O desafio aqui é pensar o seguinte: Se essas letras existissem fisicamente, mesmo com a impossibilidade de alternância exata dos pontos de transição, elas ficariam presas umas nas outras? Você pode olhar e dizer que o "S" não ficaria preso, mas é necessário observar que suas extremidades são em formato de gancho. Portanto, tanto uma ação hipotética da gravidade quando uma ação de puxar para qualquer um dos lados não vai tirar a letra dali facilmente. 

O objetivo precisa ser manter a letra "presa"? Não necessariamente. Mas o novo escudo do Flamengo me trouxe um ponto de desconforto justamente por esse fator, já que em alguns pontos parece existir essa orientação e em um específico não. Observe o escudo antigo: 


Veja acima os pontos de transição da letra "C". Existe uma alternância que dá a impressão de que a letra está envolvida (eu diria até quase que emocionalmente) com as demais. E embora esse monograma como um todo não possua pontos de transição exatamente alternados, no final a impressão é que nenhuma letra está solta. Nesse exemplo,  a letra "R" (que não costuma ser uma letra fácil de usar nesse tipo de técnica) é o elo entre as outras duas, segurando-as.


Já no novo trabalho, para promover uma mudança além das linhas e extremidades, a opção foi deixar o "C" mais solto. Logo, a impressão que eu tive assim que bati o olho foi que o "C" vai cair. Se tal mudança tivesse sido promovida com o "F" seria mais confortável para a minha compreensão, já que se trata da letra mais importante do nome. 

Lembrando que essa é uma impressão minha em função das soluções gráficas que EU gosto. Não desejo depreciar de forma alguma a nova identidade do Flamengo, muito pelo contrário. Parabenizo o clube por estar de olho no presente e no futuro, trabalhando no fomento da marca que é, sem a menor dúvida, a de maior potencial do Brasil no âmbito esportivo. 

Daniel Accioly, Escudo Sob Medida

A imagem do novo monograma foi retirada da página Baú do Flamengo, que indico aos torcedores.

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2 comentários:

  1. Essa letra "C" solta também me incomodou. Mesmo não tendo visto 'oficialmente' esse novo escudo, eu acho que ainda prefiro o que tinha sido feito anteriormente (link: https://i.imgur.com/jrscZqT.jpg ). Nesse, apesar de perder o efeito das pontas afiadas, o "C" se mantém preso e as letras parecem bem fluídas e legíveis. Gosto também do encontro, dentro da letra "R", entre o "C" e o "F".

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  2. Concordo! Esse projeto com as pontas mais elaboradas (que você enviou no link) ficou muito bem resolvido!

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